crónicas da rua do jardim IV (ou muito perto do pó)

Nesse ano era Julho e era dia. Os miúdos eram bem mais baixinhos e fazia muito calor, muito calor mesmo, algo raro para aquelas bandas, nas quais o vento sempre encontra uma casa para morar. O mais novo não parava de dizer coisas na linguagem tagarela e incompreensível dos bebés, o mais velho um pouco enfastiado com a distância dos brinquedos preferidos.

Fomos descobrir as ruínas do Forte que ficava por cima de uma imensa língua de areia. Ao vê-lo da janela do carro, o miúdo mais crescido entusiasmou-se e saltou para fora. Todos o seguimos, sorrindo na visão da pedra-sobre-pedra, dourada pelo sol. Não se vislumbrava mais nada a não ser o som. O som da melodia de uma gaita de foles. O bebé calou-se, o mais velho pediu silêncio e tomou a dianteira.
A melodia era perfeita a não ser pela insolência do absurdo. Pé-ante-pé procurámos: um homem, em trajes rigorosos do País de Gales, tocava numa das antigas salas do Forte, protegido do calor. Sentámo-nos e perdemos a noção do tempo e do lugar.

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Este ano era Agosto, era um céu sem Lua, no mesmo Forte de Almádena de há anos atrás. O mais velho quase chega aos dois metros, ajudado pelo saco enorme que traz às costas, o mais novo já passou do metro e vinte e continua tagarela. O vento, cortante, fazia bater o dente, o cão queixava-se do pêlo demasiado curto .

Deitámo-nos no chão duro, rindo do frio, das pedras, das toalhas em camadas sobre os nossos corpos. O rapaz-homem abriu o saco, montou o telescópio, apontou para o céu e pediu silêncio. Pouco tempo depois, era a chuva de pontos de luz, vinda de todos os lados, sem possibilidade de abarcar a imensidão, mas trazendo a nossa pequenez à consciência.

Muito perto do pó das estrelas, perdemos a noção do tempo e do espaço. O rapaz-rapazinho, apesar do frio, apesar do vento, quase adormeceu. O rapaz-homem, de olhos postos no telescópio, era mais um brilho na noite escura.

(Fotografia de Yves Callewaert, tirada poucos dias depois na Carrapateira)

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