crónicas da rua do jardim II (ou a escada e o cão)

O cão tem medo das escadas.

Dizer que as escadas são verticais seria pouco. As escadas são brancas de neve e verticalíssimas. Tão a pique que o joelho bate no degrau de cima quando se sobe e há que colocar um pé nos degraus lado a lado, de forma lenta, quando se desce.

Ora o cão é preto e branco.

E apesar de ser um belo exemplar da raça e um extraordinário modelo da boa forma, tem dez anos (na raça humana, perto de sessenta) e cataratas em ambos os olhos. Significa isto que o que o cão vê é uma montanha em forma de escada, uma montanha nevada e de cantos demasiado pontiagudos. Por isso desespera quando fica sozinho na ampla sala de baixo ou no corredor aberto para os quartos, de cima.

O cão faz uma espécie de pataseado nas horas de acordar e ir dormir.

Não gane. Pataseia apenas. E quando sobe ou desce, ao colo de um dos donos, sem que nenhum tenha podido correr escada acima, sem que ninguém se tenha estatelado escada abaixo, com cão ou sem cão, durante quinze dias, eu penso:

Até nos degraus ficou entranhada a calma que pé nenhum poderá absorver.

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