só nós dois

A criança embirra com a mãe todos os dias; a muitas horas do dia; com aquele ar de já-não-tenho-pachorra. A mulher impacienta-se, algumas vezes desespera e hoje, por fim, reage com calma e pergunta. A criança responde tranquilamente, com o ar mais meigo-quase-adulto do mundo:

– Sabes, mãe? Estou um bocadinho farto de ti. O que eu gostava mesmo era de estar sozinho com o pai, assim uns dias. Só nós os dois.

A mulher engole em seco e por segundos tem a tentação de seguir a tradição matriarcal mais antiga da cultura judaico-cristã de se vitimizar e se sentir a mãe mais traída do mundo. Desarranjar o cabelo, ficar com os olhos chorosos, curvar os ombros para dentro e, como é evidente, suspirar, suspirar muito. 

Sente-se então ridícula e pensa como é bom que a criança tenha a liberdade de lhe poder dizer o que lhe disse. Haverá prova maior de confiança? De segurança? Não.

Na garganta, o sapo mantém-se mas, a pouco e pouco, vai ficando mais pequeno.

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