pausas de incapacidade

Quem ama de modo profundo o acto de escrever conhece as trevas do aperfeiçoamento. Sabe quão difícil é encontrar a frase certa, antecipa com ansiedade o momento da construção incorrecta, do edifício de palavras que se desmonta, se faz explodir e depois reerguer vezes sem conta, sem garantias de um final feliz. Existem momentos de puro encantamento quando o clímax da frase se atinge; mas são raros. Mais frequentes são as ocasiões em que as palavras não obedecem à mente de quem escreve: esse é o eterno e derradeiro desafio à perseverança de um escritor.

No entanto, a frase tem sempre um propósito. O de discorrer sobre um tema, descrever uma história, elaborar um poema. A maior de todas as dificuldades está aí: a ideia mais bonita do mundo pode transformar-se numa verborreia de estilo. Uma espécie de cacofonia egotista na qual a pureza inicial se esfuma e perece.
As melhores histórias, as mais fascinantes reflexões, os poemas que nos elevam, provêem da vida real, melhor ainda, resultam de uma experiência real da vida. A experiência que deixa as cicatrizes e as rugas que a contam (como bem narrou uma grande amiga num conto seu e perdoa-me este pequeno furto, Isabelinha).

E, não raras vezes, a vida, (a nossa ou a dos outros que nos rodeiam, se repararmos neles) é demasiada. É desregrada de dura, excessiva na injustiça para com alguns. Nesses capítulos da existência verdadeira, eu, deixo de saber juntar palavras.

A tristeza, a dor, o sofrimento em interrogação de final, por muito necessários que sejam, são esquinas da existência às quais dedico o respeito do silêncio. Sou incapaz de as roubar para fazer nascer uma ideia, fico demasiado calada por dentro para criar uma alegoria.
Não compreendo bem por que o faço. Mas é como se estas pausas de incapacidade fossem os degraus necessários para construir uma torrente de beleza suficientemente imensa como para inundar o que chegará no durante e no depois.

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