a rendição da vergonha

Começo a perder a vergonha.

Agora percebo. Percebo a minha provável incapacidade natural em dar nomes a tudo aquilo de que gosto. Afinal, é mais importante (se é que o superlativo importa) saber como se chamam ou sentir o que querem dizer?

As pessoas impressionam-me pelo que reflectem nos gestos das mãos, na articulação inteligente e quase imperceptível do humor, no poder da voz, na ternura que sobressai mesmo se a desejam esconder, no olhar a direito, no toque fugaz que contudo deixa uma marca indelével, na frase não-pensada escapada dos lábios seguida de uma quase-fuga. Os nomes vêm depois; muito depois (se é que me lembro deles e para isso tenho de as querer) e aderem-se-lhes como complementos necessários. Não são raras as vezes em que lhes poderia atribuir outros, de sonoridades mais adequadas à impressão que largaram sobre a minha pele. Sobre esses, guardo segredo.

E, mais uma vez, a música. Sempre a música.

De novo, sou estruturalmente deficiente na designação, no conhecimento dos nomes. Sei apenas definir a vibração, posso usar adjectivos nos mais diversos graus até chegar ao ponto em que fico muda. Ficar muda é a minha forma de rendição, o momento em que o corpo inteiro, a cada centímetro de pele e orgãos, declama e declara a sua mortalidade face à imensidão da beleza. O cérebro (o meu, pelo menos) ou a mente pouco ou nada fazem a não ser registar; e, presentemente, não autorizo sequer que se permitam à insolência da avaliação do meu abandono.

Durante anos senti vergonha de não saber trocar os graus do esplendor pelos nomes dos seus criadores. Hoje, começo a perdê-la por compreender que sempre admirei quem me pudesse ensinar mas que afinal conheço muito mais do que pensava. A questão está exactamente aí: no reconhecimento de que talvez a sabedoria possa vir directamente do sentir; que, em certos aspectos da vida, talvez eu apenas saiba sentindo, mesmo que essa seja uma medida diferente.

Compreender esta medida é mais uma forma de pacificação. A vergonha não faz falta a ninguém.

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