a vida mais limpa de todas

O tapete estava na entrada da casa havia mais de duzentos anos.

O aspecto era irrepreensível: os fios de tecido, apesar de um pouco desgastados pelo tempo, mantinham-se erectos, limpando com firmeza qualquer bota, sapato, sandália ou pé que ali pousasse. O que importava era a limpeza exterior; nisso, o tapete era exímio. Ninguém diria (e, com efeito, ninguém dizia) que era coisa de tanta idade. E, de facto, se não fosse o estúpido do cão, demasiado novo e excessivamente atrevido, nunca ser algum teria visto as crateras que, a pouco e pouco lhe esburacavam o interior. Crateras, buracos-quase-poços-sem-fundo criados por baratas milenares, alvas, quase transparentes pelo seu ancestral ódio à luz, arrecadando tantas outras misérias nas patas e antenas filiformes.

O tapete, às escondidas, coçava as mazelas, coçava, coçava, coçava; e em cada coçar afagava os insectos diáfanos que por isso escavavam mais fundo de tanto prazer. Debaixo do tapete, o soalho sofria; mas o aspecto daquele era sempre tão encantador que na memória desapareciam todos os verbos levantar ou espreitar, a palavra debaixo ficando sempre por debaixo de todas as línguas.

Mas um dia a porta ficou aberta.

E deixou que uma brisa estival entrasse.

Um odor a trapos velhos com humidade seca e mofenta fez-se-sentir.

O cão, sentiu o fedor: entrou. Farejou o ar, seguiu a poeira invisível da fetidez, afundou o focinho no tapete. O tapete esperneou, esbracejou. Contudo, a curiosidade do cão era mais forte: empurrou ainda mais o nariz e, ao sentir as presenças remexidas procurando penetrar as suas narinas, sacudiu a cabeça com vigor. O tapete desfez-se em mil bocados, as baratas translúcidas berraram na visão da luz.

Nesse momento entrou a mulher. Olhando enojada para o tapete, disse:

– Que merda de tapete!

Nunca aquela palavra tinha sido dita naquela casa.

No soalho, um buraco ficou. A mulher limpou-o com todos os cuidados, prometendo em voz alta que não deixaria que ninguém o abafasse. Colocou então um pouco de terra e plantou uma semente de Ailanthus altíssima.

Com isso ela sabia garantir que dali a duzentos anos, naquele mesmo lugar, estaria a vida mais limpa de todas.

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s