a leitura é um amante tramado

Por vezes penso quão mais fácil seria ser absoluta e completamente ignorante sobre o acto de ler.

Não me enganei, não. O desconhecimento da leitura não resolveria o problema. A incapacidade apenas aviva a curiosidade quando a semente está plantada ou cravada de forma inevitável num cromossoma de número indefinido.

Em alguns casos, está. E quando é, apenas espera e espreita, em busca do momento mais propício para apertar o botão da insatisfação recorrente. Nesses sem-remédio mesmo o estádio de analfabeto mais puro revelará de imediato o lume brando que prenuncia a fase da sofreguidão. O não-leitor vai clamar pelas leituras em voz alta.  Perscrutará cada letra. Decorará sons e apaixonar-se-à pela cadência sem possibilidade de retorno; esse será  o dia em que desistirá da voz de outrem que usou em proveito próprio e demandará a aprendizagem da junção das letras em palavras, das palavras em frases.

Esse é o primeiro momento do paraíso infernal. Sem consciência, como é evidente, porque a única é a do ego maravilhado que-não-depende-para-poder-ler. Eu já sei ler. Inicia-se a voragem louca da conquista da quantidade de páginas, do triunfo sobre a diminuição progressiva dos tamanhos dos caracteres, o assassínio dos desenhos. Eu já sei ler! 
Surge depois a puberdade da leitura e com ela a descoberta dos escritores, a idealização dos escritores, a maldição que reveste as letras de uma ou de muitas outras histórias.
Um dia, o leitor cora e o livro fecha-se: o leitor descobriu que leitor ele é.
Declamará poesia aos gritos desprezando a prosa, ganhará olheiras com o romance, imaginando-se demasiado ávido para a languidez que imagina num poema.

A identificação de si próprio é um estandarte que carregará durante anos. Ainda não será suficiente, contudo. O terceiro momento da paz (momentânea) nos infernos é o da curiosidade. Ganhamos a poliandria literária. Não é mais suficiente ler apenas um. Ou esse conduz a outro. A mais outro. Só a mais um. Até que o orçamento se esgota e o senhor da livraria nos recebe com ‘… e o que vamos encomendar hoje?’. Assumimos a nossa profunda e total infidelidade, pior, deixamos de nos importar com isso.

Num certo dia, o leitor ávido das histórias, dá por si a ler devagar.
A ler tre-men-da-men-te devagar.
Observa-se incrédulo a voltar atrás, a reler frases, a passar com a gema dos dedos sobre uma combinação de palavras como se desejasse que a mesma permanecesse impressa na pele como uma cicatriz contra o esquecimento. Repara no emudecimento que um poema lhe ocasiona.

Aí compreende finalmente a paixão sem possibilidade de domínio que é o acto de ler. A impossibilidade de uma identidade definitiva, a estultice de alguma vez ter considerado que sabia ler ou que tinha lido o que quer que fosse. A leitura é um acto orgânico. Descobre-se em cada vez, e no mesmo livro por diversas.

Meu Deus como seria infinitamente mais fácil.
A leitura é o amante mais criativo, mais ardente, mais desconcertante e mais particular que alguma vez existiu. Um amante tramado do qual, lamento mas apesar de tudo, nunca me poderei despedir.

Nem na morte.

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