sorrisos, viagens e katsimbalis

Sabes uma coisa? Eu até fui uma espécie de milionária… pelo menos na minha perspectiva das coisas, num momento em que eu e o meu marido ganhávamos uma fortuna, éramos apenas dois, apenas a vida de ambos, os desejos de cada um, os desejos entre dois. Quando o dinheiro sobra de maneira invariável ao final do mês. Quando te divertes a esticar para ver se resta algum. E sobeja sempre. Sempre. A total e absoluta falta de respeito pelo vil metal, era isso mesmo. Por outro lado…

… era também uma certa forma de punir um desespero. Mascarar talvez seja o verbo mais apropriado… Porque era uma máscara, sim, a que colocávamos sobre a voragem louca de trabalhar doze a catorze horas por dia, sobre a consciência da insanidade das noites em branco, sobre a completa ausência de tempo próprio que traz a sofreguidão mas não o prazer. O preço da nossa alma era o valor que recebíamos pela compra impulsiva e ansiosa. No entanto não me interpretes mal, fujo de qualquer pretensão moral ou de humildade barata; falta-me valor para a primeira e não tenho a mínima paciência para a segunda. O que quero dizer é que o dinheiro nos permitia tudo mas a vida inteira passava num ápice demasiado escorregadio para sequer ficar um grão de areia nos dedos… Era satisfatória (muito mesmo) a ideia real do conforto, salvam-se memórias de muita beleza… essas não eram compradas, eram momentos de pele, assim gosto de os descrever.

Sabes com o que sonho? Sonho com o prazer de não ter angústias e poder fazer o que me apetecer com uma colherada de masoquismo (sorri agora, se quiseres, eu também vou sorrir): a dose certa de restrição para ter absoluto prazer em tudo o que quiser. Aquilo de que gostava mesmo era de viver com o dinheiro como vivo com o resto da matéria de que são feitas as ‘coisas’… com respeito mas sem apego… espera, sei agora definir melhor: com o apego justo da liberdade e a restrição equilibrada que te permite o prazer demorado, bem sentido, mastigado todas as vezes necessárias para se entranhar no corpo, no espírito e desenhar um poema. Ter um resto de vida plena de sorrisos, viagens, histórias e Katsimbalis.

Apenas isso. E começa por aqui, por este texto.

(Este texto é dedicado ao meu Pai, com toda a justiça. Agradar-lhe-à muito saber que é o resultado de uma conversa real desta sua filha com uma grande amiga, a única que certamente perceberá a minha referência ao personagem grego.)

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2 thoughts on “sorrisos, viagens e katsimbalis

  1. Seríamos, seremos?

    Respondendo a uma mensagem da nossa filha Maria Alexandra.
    Ontem, 29/4/2015, em Lagos, um advogado, o doutor Centeno, que nos resolveu um caso bicudo, indicou-nos um edifício em reparações ao lado do seu escritório referindo que ali será o museu da escravatura. E comentei que a escravatura, existente sobre parte da humanidade desde a pré-história, ainda hoje subsiste. E acrescentei que o dinheiro, hoje um dos maiores males da humanidade, também um dia terá o seu museu evocativo.
    Todos nós na Terra, com raras excepções . de alguns santos, de alguns ascetas, de alguns desprendidos de todas as ilusões, todos nós a partir de certa idade começamos a depender do dinheiro, começamos a nos subjugar ao dinheiro, a usar parte do nosso tempo de vida a pensar no dinheiro. Lembras-te da primeira vez que usaste o dinheiro ? Terias cinco, seis ou sete anos, querias aquela guloseima, aquele balão, aquela boneca que te olhava na montra por onde passavas a caminho da escola.. Mas em casa tinhas tudo o que precisavas para viver, não davas por isso, as coisas aconteciam assim, sem te aperceberes, pensavas que teria de ser sempre assim, nem te passava pela cabeça que fosse doutra forma. O teu mundo limitava-se aos teus desejos, o teu gosto pela vida enquadrava-se no que tinhas á tua disposição em poucos metros à tua volta, a curiosidade orientava, definia as tuas ambições e, até uma certa idade era sempre satisfeita. E quando não o era, sempre e sem dor, olhavas para outro lado se ainda não aprenderas a chantagem dos gritos ou do choro.
    E agora, dentro da vida que Quem me criou, me permite ainda viver, agora tenho saudades dessa inocência dos meus cinco, seis ou sete anos, que me permitia não pensar em coisas esquisitas e por mim então ignoradas como a escravatura e o dinheiro.
    Foi a inteligência, a esperteza, a argúcia do homem( e da mulher, com reticências) que criaram os mercados de trocas, as tabuinhas, o dinheiro, os bancos. Criações baseadas no interesse, na inveja, na ambição de poder, raro em necessidades vitais. Nenhuma outra espécie animal ou vegetal nasce, orienta e faz depender a sua vida desse sistema. Todas as outras espécies aproveitam para viver e vivem dentro e do ambiente natural onde nasceu e abanam o rabo de prazer usufruindo apenas do que a natureza lhes concede. Tal como nós até aos cinco, seis ou sete anos, a nossa família fazia parte da natureza em que nascêramos e era tão natural o que nos dava, como para um elefante é natural a folhagem das árvores à sua volta, de que se alimenta. E, como todos os outros animais chamados de irracionais, só se defende ou ataca o que perturba, ofende ou altera a natureza à sua volta. E, em vez de abanar o rabo, a nossa espécie aprendeu a sorrir e a sorrir sempre quem para ela sorri – ou a quem para ela abana o rabo..
    Tudo isto, pouco e mal comentando o que escreveste, para terminar com as interrogações:
    – Seríamos menos felizes se apenas tivéssemos a Natureza para vivermos?
    – Seremos mais felizes se acabarem as escravaturas, entre elas a do dinheiro?

    Publicada por Alberto Quadros à(s) 30.4.15 Sem comentários:

  2. Vais rir-te dessa minha insistência. Que represente e significa apenas um desejo para o futuro.Ainda pouco sentido por muitos que entretanto gostariam de ver erradicada de vez e por completo, as escravaturas. Todas.

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