retribuir

A mulher ouviu a Osteopata e estremeceu. Sempre encarara as dores como sobressaltos de caminho, pedras pequeninas que se retiravam com facilidade do percurso através de pontapés mais ou menos ligeiros.

Agora sabia da existência de uma condição física que estaria com ela até ao fim. Nada de mortal, com gravidade relativa, mas exigindo atenção, cuidados preventivos. Isso doeu-lhe mais do que a pontada aguda que não a deixava dormir há uns dias; doía mais que as areias que pareciam circular pela base da nuca em certas manhãs. Era a constatação da fragilidade de um corpo que sempre vira como a fortaleza robusta em permanente prontidão para responder às suas exigências. A constatação de uma espécie de cansaço e idade do corpo. Detestou essa ideia, detestou acima de tudo a forma como esta a assustou.

A mulher acorda hoje e passa a perna por cima de uma barreira imaginária porque não resiste a ceder ao medo. Do outro lado, constata que a sua paisagem mudou. E, em vez de fazer como era seu costume e mandar as dores à merda, decide dar-lhes atenção e cuidado.

É justo: há mais de quarenta e nove anos que me amparas contra toda e qualquer espécie de golpes. Chegou o momento de te retribuir.

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2 thoughts on “retribuir

  1. paciência, menina. Trata o corpo como tratas um computador: é uma máquina,e “as máquinas têm sempre razão”.. Um beijo chaio de razões

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