as partidas do passado

O passado é uma chatice.

Deixa-nos memórias.

Quando é recente, traz os layers das boas e das más sobrepondo-se, afinando o critério. Mas à medida que o tempo passa, graças a Deus, as más vão-se esfumando até se tornarem difusas e finalmente quase inexistentes. As boas recordações prevalecem então. A natureza humana tem esse lado bonito.

No momento em que o passado se tornou mais longínquo, passamos por várias fases: a da nostalgia boa mas ainda criteriosa, uma espécie de aconchego do muito de bom que já passou; depois, a da melancolia que se pode transformar em frustração porque nos esquecemos da razão por que aquelas experiências se tornaram passado.

As opções são então três: uma delas é fazer regressar a vontade e recuperar o que ficou para trás transformando-o num possível presente. Afinal, nunca é tarde e o tempo que cruzámos dá-nos (espera-se) a maturidade necessária para uma possível recriação no momento actual. A outra alternativa é escarafunchar um pouco mais e questionar: qual foi o motivo ou motivos que nos levaram a abandonar ou escolher outro caminho?  Vagarosamente, as memórias completam-se com todas as outras que ficaram adormecidas, voltamos a ver o quadro por completo e fazemos um gesto feio, mandando a frustração para o-diabo-que-a-carregue. A terceira opção é abandonar-nos ao vazio do que ficou para trás e autorizar que o presente se carregue de sombras sobre as quais não teremos controle porque são apenas isso, sombras aparentemente coloridas; contudo, apenas sombras.

O passado prega-nos estas partidas. A beleza é saber observar, afrontar o touro e depois disso perceber que os cornos são apenas virtuais. Uma boa ajuda é conversar, contar todas as histórias e, acima de tudo, a da frustração. Um bom ouvinte (isso mesmo, aquele que apenas ouve, não julga nem opina) pode ser um excelente remédio. As memórias abandonam o corpo e o círculo vicioso da mente, pairam sobre o ar e, graças às expressões milimétricas de quem ouve, são sopradas para o lado certo. O passado é posto no seu lugar sem liberdade para que nos infernize o presente. Seja porque nos rimos dele e não nos deixamos enganar, ou com liberdade plena (e coragem) para nos incomodarmos com o que resta por completar e, de uma nova forma, dar mais uma reviravolta na nossa vida.

Chama-se a isto agir.

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