la cucaracha

Cena I:

Mulher ao volante, ensonada, leva filho à escola. Pelo caminho conversam. A mulher dá por si a pensar (sim, porque as mulheres realmente fazem demasiadas coisas ao mesmo tempo): este carro está um nojo, precisa mesmo de uma limpeza. Como tem uma cabecinha inacreditável, as palavras sujidade e nojo disparam imagens na cabeça, apimentadas por conversas anteriores absolutamente horripilantes por estarem relacionadas com um determinado insecto; tudo acaba por se resumir a uma palavra que identifica um dos seus maiores terrores ridículos: ba-ra-ta. Arrepiada, afasta o pensamento e concentra-se no diálogo sobre fatos de Jedi, sabres de luz e guerras ‘nas’ estrelas.

A mulher deixa o filho no colégio com beijos e abraços, volta para o carro, engata a primeira e com um suspiro imagina o trânsito que a espera mais à frente.

Cena II:

Mulher ao volante, impaciente. Já passaram mais de 15 minutos e continua parada na fila de automóveis. 15 minutos nos quais deve ter percorrido, quê? 500 metros? Mas a que horas vou começar eu a trabalhar?!

Sente uma pequena comichão nos dedos do pé esquerdo. Diz um Ai…, pensando tratar-se de uma coisa própria da pele, espreita e vê algo tremendamente suspeito a afastar-se rapidamente. Procura enganar a preocupação e obriga-se a pensar: deve ser um aranhiço.

O carro avança mais dois metros, está quase no semáforo de Algés. Nova comichão, desta vez no pé direito. Ai o catatau… olha e vê: o bicho não é um aranhiço, é muito maior que um aranhiço, é castanho e foge a toda a velocidade.

Um frio pequenino sobe pela espinha dela acima e a suspeita horrível cresce: serááááááá????

Cena III:

A mulher bate com os pés no chão (obviamente não quer ser novamente atropelada por The Thing) enerva-se com os condutores que não andam (é incrível quando tudo parece andar mais devagar, como as pessoas parecem fazer de propósito para nos dificultar a saída e fuga na iminência de uma ameaça).

De súbito, entre os pés (agora vagamente alados) e os pedais do automóvel, um insecto passa desenfreado e esconde-se debaixo do banco da condutora. Um insecto não, sejamos mais precisos: uma barata, castanha e gorda.

A mulher avança pelo trânsito qual nave espacial a ser perseguida não menos que pelo terrível e temível Darth Vader. Quando por fim chega a casa, tem um ataque de riso com a sua nervoseira e com o ridículo das proporções.

Cena IV:

Uma barata, castanha e gorda, está à beira de um AVC debaixo de um banco de automóvel. Raras vezes viu um monstro tão grande, colorido e loiro, a vociferar e a bater com algo que se assemelha a patas, daquela maneira. A barata nem sabe como pôde escapar. Jura a si mesma que vai sair daquele sítio assim que conseguir, nem que seja para avisar as manas (que vivem no fundo da rua) a reconhecê-lo como indesejável. É que, tal como é sabido, as baratas têm uma excelente memória.

(Esta história passou-se na realidade, esta manhã, num percurso Dafundo-Ajuda. Se alguém viu ou filmou o sucedido – Google is watching you – a mulher vai receber muitas notificações nas redes sociais.)

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s