a propósito de Houellebecq

A mulher fecha o livro e pela terceira vez desde o início da semana, desde que o começou, sente-se indisposta. A culpa talvez não seja do autor, ela é demasiado visual naquilo que lê, demasiado visceral na forma como entende as palavras. Contudo, o livro está repleto de pessoas infelizes, repleto de infâncias de abandono e violência inflingida por outros no mar de um imenso desamparo. Essas histórias incomodam-na. Ela sabe que não são fantasia, existem na realidade, o descuidado e a incerteza permanente em criança criam adultos com personalidades magoadas, feridas de maneira irreversível. Ainda por cima o autor escreve e descreve muitíssimo bem, o que, apesar de ser um prazer na leitura, não ajuda no desviar da atenção, ela é uma leitora perfeitamente inábil em concentrar-se na forma e esquecer o conteúdo.

Por essa razão, sabe também que este é um daqueles livros que não poderá de maneira nenhuma acabar bem. Não parece existir alguma espécie de possibilidade de redenção ou esperança: ela sabe. Por isso a dissonância apresenta-se, tentando-a: vais abandonar ou prosseguir?

É sexta-feira, a mulher trouxe o livro na mala. Talvez se permita a trégua do fim de semana; ou talvez o leia de forma desenfreada na tentativa de tentar descobrir, nem que seja nas últimas palavras, um estertor de beleza.

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