breves do carrascal * (sobre a importância e o rigôr)

E, naquele momento, o anfitrião, os óculos já escorregando pelo nariz, a madeixa grisalha em fase acelerada de despenteio, a mão com o dedo indicador bem levantado, diz:

– O que vocês não sabem… 

Faz-se um silêncio sepulcral (quase, vá, não é preciso exagerar) entre os convivas. Serão as tão esperadas revelações sobre a famosíssima Terra Ôca (não confundir com Oca que, em castellano significa ganso, nome desmerecedor para o assunto)…?

– … é que eu…

As respirações suspendem-se, a madeixa de cabelo acinzentado acentuando as palavras. Será agora…? 

– … tive…

Oh Deus…! Irá ele falar sobre o fenómeno? Finalmente?

– … uma Pachancho!

Quase de forma concertada (a culpa deve ser da madeixa de cabelo à qual se começam a reconhecer propriedades invulgares), grande parte dos convidados se engasga com a força do riso, quase chegando aos limites da asfixia. Gotas de vinho de alto calibre são desperdiçadas sobre a toalha de mesa (que deve ter ficado com umas nódoas para as calendas).

Uma voz feminina reconhecida pelo seu talento de articulação invulgar de certas palavras (para melhor compreensão, colocar a ponta da língua na parte inferior dos dentes incisivos superiores e procurar dizer, ou antes soprar, a letra ‘s’; não é tarefa fácil, o que apenas demonstra que as pessoas habilitadas com tal capacidade devem ter sido escolhidas para desígnios divinos, como o de conviver com elementos do sexo masculino de cabelo com mobilidade duvidosa, quase mágica, sobretudo a partir de determinada hora), aquela voz feminina não se contém mais e diz:

– Tu tiveste uma pachancha (para uma correcta leitura fonética da expressão, use-se a técnica referida no parágrafo anterior e leia-se tu tiveste uma pasxansxa ou tu tiveste uma paçança)????????

Os convivas quase que fazem um princípio de apoplexia causado pelo riso. 

O homem ajeita a madeixa teimosa sobre a cabeça, compõe os óculos e diz:

– Pa-chan-cho. Rigôr, por favor.

Pede silêncio e então recomeça:

– Há alguns anos…

(Alguns dos presentes compreendem que foi há muitos, muitos, muitíssimos, anos. Por respeito, mantêm boca chiusa, o respeito pelos mais velhos é fundamental, sobretudo em determinadas organizações.)

– … ofereceram-me uma Pachancho.

(Histeria total. De novo, erros vários na articulação do nome com trocas de vogais, ausência de consoantes absolutamente fundamentais. O narrador, torna:)

– Pachancho, há que ter rigôr!

(Contenção absolutamente forçada, ainda se escapam risos por aqui ou por ali. Alguém se atreve, e pergunta: mas por que é que te ofereceram uma Pachancho? Ele ignora a questão e prossegue, o que leva a crer, de forma clara e inquestionável, em razões pouco lícitas… ou talvez… relacionadas com a Terra Ôca?).

– Escondi a Pachancho no vão-de-escada da casa da Júlia, o meu pai não podia saber que eu tinha uma.

(Pudera! dizem alguns, entre lágrimas, o princípio de apoplexia de riso mais ténue, contudo ainda ameaçando… fazer-se.)

Mas era portuguesa? pergunta alguém, ao mesmo tempo que diz Passa-me aí a garrafa de Emerlinda.

– Era portuguesa, sim, e tinha buço.

De novo produzem-se engasganços, rimmel horas antes colocado pestana a pestana para a ocasião escorre por uma ou várias peles abaixo, a compostura geral perde-se. O narrador perde-se, a madeixa de cabelo estremece e ele compreende: a pergunta era relativa não á Júlia mas sim à Pachancho.

– Isso já não sei.

Um dos convidados mais afoitos (de tez re-al-men-te morena… ficam as reticências para as possíveis ilações de uma possível ameaça árabe, eles estão mesmo entre nós) começa uma investigação desenfreada. Desencanta a origem nos segmentos e nos pistões (ou dir-se-á pistons?), as raízes e os primeiros tempos, árduos, na terra do Bom Jesus, a ambição de um Peixoto, criador da autêntica Pachancho, finalmente a exportação, a evolução e ampliação do negócio com a presença de uma nova janela de oportunidade, a criação de aldeamentos com idêntico nome (Aldeamentos do Pachancho, como é óbvio!).

(É caso para se dizer, numa boa equipa e numa boa marca, ou se quiserem ser mais modernos, num bom naming, não se mexe.)

O anfitrião comove-se de tal maneira que corre para o OLX (corre… como quem diz… essa é uma outra história sobre a ausência de internet naquele lugar que agora não vamos de maneira ne-nhu-ma referir), corre em busca de uma Pachancho. Depois de muito procurar, encontra-a, bem como um T2 e um T3 á venda nos ditos aldeamentos com o mesmo nome. Por momentos, hesita entre uma e outros, a emoção da evocação das lembranças é grande… vale-lhe a namorada da articulação linguística invulgar que o impede de comprar qualquer um dos três.

A noite encontra o seu fim com a criação de um PMCC (ou PMC, como propõem de forma veemente alguns dos mais fundamentalistas) do qual o anfitrião será o sócio número um e os convidados os vogais, com tarefas bem distribuídas nas áreas da renovação, comunicação, divulgação e disseminação da marca.

Nas despedidas e nos momentos posteriores, em cada um dos automóveis, a caminho das respectivas casas, não se ouve falar de outro assunto que não o do rigôr, da importância de se chamar… Pachancho.

(Nota 1: talvez seja importante explicar, sobretudo para não espicaçar a imaginação de mentes mais perversas que a Pachancho é uma mota e o PMCC – ou PMC para não ferir as susceptibilidades de apóstolos bem recentes- é o recém-fundado Pachancho MotoClube do Carrascal que, com toda a justiça terá ali o seu digno lugar.

Quanto á Terra Ôca, é caso para se dizer que será tratada com a importância que merece a seu tempo porque hoje já não temos.

Nota 2: E, de novo, a bem do rigôr, na verdade este texto deveria chamar-se breves do quase carrascal, uma vez que a morada em questão está a aproximadamente a cinco passos e três quartos e meio da placa que assinala o nome da povoação. Mas não ficava nada bem pelo que foi decretado, por unanimidade, que se abolisse tal segmento.)

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