talvez a primeira

Penso que esta vai ser a primeira vez.

Há muitos anos que repito o mesmo: o primeiro dia de trabalho depois das férias grandes sabe a primeiro dia de aulas, tal como o último dia de férias tem um mood bluesy no qual parece que o tempo se desacelera de motu proprio e o ar se auto-respira quase ao ponto de se faltar a si mesmo para acompanhar a lentidão do mundo aparente que nos quer agradar.

Há por isso um misto de alegria e nostalgia. Uma combinação de esperanças e ilusões com momentos extremamente felizes, e outros que ficaram pelo caminho deixando umas notas de limão um pouco menos doce. A (quase) desresponsabilização do significado de férias salta de maneira violenta para a responsabilização do regresso à vida de trabalho. Como uma espécie de morte de um ano que passou.

Apesar de tudo isto ser verdade, aquilo que a minha memória guarda este ano são outras coisas, muitas outras, quase que demasiadas outras, restos gratos desse tempo que se tornam inesquecíveis: uma frase disparatada; um comentário dito de forma natural com uma formulação tão correcta na composição e significado que transporta a inevitabilidade de um silêncio de olhos brilhantes; uma história que solta risos que nunca mais se despegam das paredes e dos nossos ouvidos também.

Talvez por isso seja esta a vez primeira.

Ontem não consegui escrever nada que se assemelhasse a um ‘final’ de férias.

Muito me persegue ainda para lembrar e contar, com imenso prazer. Claro que alguns pormenores serão exacerbados, construídos e temperados com outras especiarias que não as originais; mas a vida é isso mesmo e acima de tudo torna-se mais viva quando dela nos lembramos assim, com pormenor, com exagero, como a gargalhada que se solta sem pensar e que no micronésimo seguinte quase nos dá vergonha de tão espontânea.

Virão absurdos. Virão breves. Virão loucuras da minha cabeça e da cabeça de outrem. A partir daqui não se saberá se nasceram durante um tempo longo de descanso ou durante a noite no inconsciente mergulhado na almofada.

Não importa.

O que importa é contar, fazer sorrir, comover.

O alheamento da existência é algo que me assusta tanto.

 

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