crónicas da pedralva IV (ou o homem morto)

As empregadas da limpeza acorreram à recepção.

Esbaforidas, atropelando as palavras, uma delas quase a pontos de uma apoplexia de tanto arfar (verdadeiro ou magistralmente interpretado), disseram:

Mulher 1: Está um homem morto na casa número (…)!!!

Mulher 2: Ai que me dá uma coisa…

Como…, um homem morto?, respondeu o gerente.

Mulher 1: Sim, está deitado numa cama, tapado com um lençol, completamente… morto!

A segunda empregada hiper-ventilou, teve de se sentar numa cadeira. A primeira insistiu:

O senhor tem de lá ir, nós não voltamos!

O responsável suspirou. Ganda chatice. A ser verdade ia ser o cabo dos trabalhos.

Pegou na chave e lá foi, seguido pela empregada decidida e pela da apoplexia (apoplexia essa que, entretanto, ainda não se tinha dado; a curiosidade cura muita coisa).

Bateu à porta.

Nada.

Bateu de novo.

Nada.

Introduziu então a chave na fechadura.

A porta abriu-se e o responsável chamou.

Nenhuma resposta.

(Atrás dele, as empregadas benzeram-se e a segunda tornou Ai que me dá uma coisa…)

Pé ante pé, percorreram a casa, o gerente na frente, as mulheres atrás, ainda armadas de vassoura e esfregona, não fosse dar-se o caso. A mais decidida bateu no ombro do homem e assinalou com gestos frenéticos o quarto do suposto defunto.

A porta estava encostada.

Empurrou-a devagarinho.

Na penumbra, sobre uma cama havia de facto um corpo estendido, coberto com um lençol. A cara parecia estranha, pensou o gerente. A segunda mulher não conseguiu (será?) conter um gritinho e ele sobressaltou-se.

Aproximou-se então da cama e tocou no corpo. Não sentiu mais nada a não ser uma superfície mole e elástica que cedia facilmente à pressão do dedo.

Fez voar o lençol.

Em baixo jazia um boneco insuflável ao qual tinha sido colada a cópia de uma cara de homem sorridente. A cara de um futuro marido.

(Esta história, verdadeira, passou-se na Aldeia da Pedralva pelas razões mais óbvias: uma despedida de solteira. Desta vez não mudei o título, apenas acrescentei alguns pormenores; na boa criatividade não se toca.)

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