crónicas da pedralva III (ou o sabor de um cheiro)

A janela do carro abre-se. O cheiro entra, descarado.
É quente, quase demasiado. Se fecharmos os olhos e o tocarmos com a ponta da língua, a impressão que chega ao palato e depois a toda a velocidade ao cérebro, é confusa: o cheiro sabe a doce peganhento de medronheiro, a pessegueiro e a figueira, mas também a gotas de água salgada, ruído estridente de cigarras e pó de terra vermelha.
Quando era miúda, confesso que o odiava, talvez por conviver com ele há demasiados anos. Hoje, adoro-o. Sabe-me a descoberta, a cores de carros que se tornam uniformes com a terra, a bagagens simples e boa companhia, a frases de pequenos e crescidos que fazem sorrir e trazem memórias dos bons tempos de descanso.
‘Tipo…’
‘Mas estas abelhas não são capazes de ir para outro lado qualquer?’
‘Tu até és boa pessoa, apesar das tuas origens’
‘Outra praia de calhaus?!’
‘Com essas luvas pareces o Ronald’
‘Não me parece nada seguro ir por aqui.’
‘Mãe!’
‘Mãe, onde está a minha toalha (à frente do nariz)?’
‘Mãe!’
‘Tenho a dizer que este carro até se portou lindamente (minutos antes de se avariar)’
Sempre me contaram do cheiro da terra que trazia outras coisas à memória. Literal, como somos todos até tarde, não compreendia o verdadeiro sentido. Agora, a cada ano que passa, saboreio-o cada vez melhor. Devo estar a ficar crescida.

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