na espuma cabe uma vida

“Well it is impossible to function on every level so I basically had to stop. If that hadn’t happened to me I would have continued to take drugs. So yeah I do actually miss it sometimes, but most of the time I don’t even think about it.”

Nick Cave

 

Tenho alguma curiosidade. Sempre tive. Curiosidade misturada com medo, aliás. Medo de perder o controle, de gostar em demasia ao ponto de deixar de ser eu para me tornar num veículo de uma substância qualquer. A dependência que leva à inexistência de alguém sempre me apavorou. 

Lembro-me de uma vez.

Eram oito da manhã e eu tinha dezanove anos de idade. Ao balcão da Versailles pedi o pequeno almoço. Um senhor chegou nesse momento. Apenas vi a mão que se esticava em direcção ao empregado, tremendo em cada centímetro de pele, músculos, ossos, unhas. O ar tinha ficado impregnado de um perfume elegante, a memória diz-me que era Tabac, no entanto os meus olhos só tinham olhos para aquela mão de dedos compridos que parecia pedir esmola.

– Um whisky, por favor, sussurrou.

O empregado cumprimentou-o com um jeito de todos-os-dias e serviu o copo que com toda a probabilidade era o de sempre há muito tempo.

Nem me atrevi a olhar, o trago único foi bem audível.  A mão que entregou o copo era agora outra, sem vestígio de tremura, uma voz bem clara agradeceu. A nota ficou sobre o balcão. 

Tenho profundo respeito por todos aqueles que passam por estas dependências e têm a coragem de as abandonar. É coragem, sim; talvez maior que a minha de as desconhecer. Como diz uma amiga, não há nada mais difícil de tratar do que a adição a algo que nos dá prazer.

No meu caso e no meu tempo de adolescente, era-se posto de parte se não se quisesse experimentar drogas . Éramos classificados de ‘certinhos’. Perdi amigos que julgava verdadeiros, convivi com outros que apenas me falavam ás escondidas dos outros, vi um grupo gigante, muito bonito de ser ver e com quem antes tinha partilhado festas de garagem, ouvido e dançado as primeiras bandas que me ficaram para o resto da vida, separar-se em dois. E doeu, doeu muito. Apenas aquele que foi o meu primeiro amor não me abandonou e estava-se nas tintas para a cor das minhas escolhas. Tal como eu relativamente a ele, não me julgava.

Hoje continuo sem julgar e mantenho a curiosidade. E o medo.

Confesso que ainda reajo ao título de ‘certinha’ porque me faz reviver uma tristeza profunda: a tristeza perante o julgamento de alguém que supostamente quer ser rebelde, deseja não ser julgado e, contudo, é o primeiro fazê-lo.

Por isso gosto desta afirmação plena de humildade do Nick Cave onde reconhece o prazer, reconhece a falta mas reitera a necessidade de se manter íntegro.

Na nossa vida inteira, há prazeres que são duros de abandonar. E não são apenas os proporcionados por substâncias químicas. Existem muitas outras tão nocivas embora socialmente aceites como ‘menos más’ (seja o que for que isso quer dizer). Existem relações tão tóxicas quanto uma droga, existem pessoas que nos sugam até ao tutano com a sua inveja ou maldade. 

Em todos os casos, uma solução é apenas a viável, sempre que a pessoa assim o queira: ter a coragem de dizer que não, aprender com a falta e seguir em frente.

Como a espuma do mar que vai e regressa, umas vezes plena de escolhos, turva e cinzenta, outras vezes limpa e luminosa, a vida, verdadeiramente vivida, contém todos estes episódios. 

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