acordados

Uma fila de carros, ela distrai-se, a força da música transigindo a regra, dois auscultadores nos ouvidos, o corpo naquela vibração estranha.

A mulher ouve e observa para fora. Perscruta, entra com os olhos, invade sem pudor com os sentidos, e escuta:

Querias viver a vida a dormir

Nem sequer me levaste contigo

As frases enrolam-lhe a garganta, fica triste na miséria imaginada de outrem ou talvez nos microssegundos de alguma miséria vivida.

Aquel’era o teu mundo

Sem ruído da razão

A moldar-te a percepção

Solta os cabelos presos e sacode a cabeça. Aquela não era ela.

No carro ao lado, uma cabeça, umas costas e outras, segundas, que se assomam, meio escondidas. Ela percebe: no semáforo, gente  madura a beijar-se. Como se fossem adolescentes. Porque talvez na novidade, na descoberta, na alegria de um encontro esperado há anos, voltam a ser. Outro beijo, demorado. Finalmente uma cabeça vermelha deixa-se ver, a mão tapando a boca num gesto de meia vergonha. A mulher, de braços no volante, assiste. A de cabelos vermelhos apercebe-se e aponta, a cara em confusão. O homem vira-se e olha. Ela vê nos olhos dele:

Vivi tod’a vida a dormir

Nem sei como partilhá-lo contigo

A mulher responde, na sua ressonância:

Já só sabias estar bem 

Contigo a dormir

Sorrindo, encosta os lábios aos dedos compridos, abre a janela e sopra o beijo.

Acordar é coragem bonita.

 

(se apetece, reler ao som de https://www.youtube.com/watch?v=iV2eReK5Qek)

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