o sapateiro e o ferrari (conversas roubadas ao jantar e douradas depois)

Há um sapateiro na Graça que faz milagres em forma de arranjos.

Dizem que faz autênticas cirurgias de rejuvenescimento naquelas sandálias que nunca mais se encontraram, nos sapatos bicolores de atacadores que deixaram de se fazer, ou nos de salão, dos vertiginosos dezoito anos.

Eu imagino de imediato um velhinho curvado, numa loja diminuta, com cheiro a cabedal e a graxa, onde existe apenas uma janela ainda mais pequenina, pela qual a luz do sol entra por uma fresta apenas e talvez por isso traga pó mágico, dourado.

O sapateiro é velhinho, sim, ao que parece.

Mas pelos vistos também é dono de um Ferrari. Na realidade, não na minha cabeça, acho que ela não chegava lá. Um Ferrari dos verdadeiros, não se pense numa miniatura da Burago.

Isso muda tudo: o lado esquerdo do cérebro reorganiza-se.

Sabe Deus o que escondem agora as meias solas.

O velhinho já não é curvado e provavelmente tem uma namorada polaca de um metro e noventa, escultural.

Salva-me apenas o meu lado romântico que imagina que, apesar de tudo,

apesar do pó que se concentra no cabedal e se espalha pela cidade,

apesar dos milhões,

apesar dos vestidos caros da loira espampanante,

há um homem que antes foi sapateiro na alma,

a quem nada mais dava tanto prazer que o de dar nova vida a uns sapatos gastos

e vê-la no sorriso grato de quem os levou ao hospital das coisas velhas,

aparentemente sem vida,

na esperança de um médico que lhes devolvesse o coração.

 

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