agora era o boxe

Sufocada, entupida, a mulher escolheu um dos caderninhos que sempre viajavam com ela na mala e fez a lista do seu verbo detestar:

Detesto que me mandem recados.

Detesto que me digam que os meus miúdos estão tristes quando já tenho consciência disso e só me cabe a minha parte da solução.

Detesto que falem da minha vida.

Detesto que a usem como tema para desentorpecer a existência ou a virem como se fosse propriedade sua.

Detesto antecipações da desgraça (que perda de tempo!)

A mulher levantou a cabeça: sabia detestar algumas coisas mais mas não eram essas as que precisava de escrever. Vomitou:

Tenho uma espécie de arrepio metafórico.

Não gosto. Não gosto nada. Parece prenúncio.

E

eu

não

gosto

de

prenúncios.

Fechou o caderno e teve pena de ter deixado um certo saco de boxe num sotão.

Ia fazer-lhe tanto bem.

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