a túnica e paganini

Sempre foi despistado.

Quando eramos pequeninos, era frequente vê-lo sair de casa com uma meia de cada cor, esquecer os sapatos e viajar de pantufas, ou chegar atrasado porque o tempo tinha tão somente a medida dele.

Foi vegetariano e macrobiótico antes de todas as febres (para horror da nossa empregada Emília, uma transmontana de gema), adoptou o uso da túnica num certo Verão (para nosso horror, demasiado jovens para lhe reconhecer a diferença) e ouvia Paganini aos gritos com gestos teatrais (para horror de todas as gerações).

No entanto, nas marés vivas do Algarve, mantinha-se firme à beirinha, ensinando-nos a respeitar o mar mas a perder o medo.

É a pessoa mais inteligente que conheço e aquela que me ensinou, sem nunca o dizer, o valor da liberdade, da fantasia e da especulação contínua.

Chama-me caçula por ser eu a mais nova.

Sei que talvez por isso lhe dei mais trabalho, ainda continuo a dar, bem sei. Mas acima de tudo espero que saiba o quanto gosto dele e o admiro.

Este senhor é o meu pai.

Parabéns querido pai.

Que venham mais 87 anos de comida estranha, sandálias e, pronto, Paganini também.

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