quarenta e oito anos

Em algum lugar recôndito que a mulher não sabe definir, existem sensores delicados. Sensores de experiências de vida.

Na presença de uma, os minúsculos reagem e colocam o corpo inteiro numa vibração de alerta. Depois, como pinças delicadas, ordenam, classificam até chegar a sentir sensações. As experiências são despensas gigantes que explicam aquilo que sempre mais a intrigou e apaixonou na vida: as pessoas.

O que viveram, o que sabem ou aprenderam, são histórias da complexidade que sempre a fascinou. Mas têm que ser reais, ela sabe quando a fábula se substitui à realidade, quando o ego toma o lugar da verdade e a fantasia. A mulher detecta a mentira porque ela se vai revelando em pequenos sinais e, a pouco e pouco, vai-se instalando um vazio doloroso, sem dó; os sensores sofrem, esperneiam e finalmente exigem o adeus, a distância, a mulher esfria.

O seu maior pavor não é o de perder as pessoas mas antes o de perder o fascínio da sabedoria que a agarra como um íman poderoso. O corpo tem memórias, sim, mas para ela as memórias do corpo apenas vibram e ressoam em crescendo se os minúsculos continuarem a captar, registar e coleccionar.

Ela precisa de pessoas retalhadas pela vida, viradas do avesso, plenas de impressões, nódoas negras, sinais.

Por vezes, sente-se pequena. Ela aprendeu a gostar da vida para trás dos outros talvez porque tenha aprendido a gostar da sua por inteiro, em vez de apreciar apenas bocadinhos, escolhidos a dedo, os mais gloriosos ou relevantes para a boa imagem de si. Foi capaz de apreciar tudo e no momento em que o conseguiu fazer, compreendeu que seria capaz de amar por inteiro a luz e a sombra.

As experiências alheias apertam-lhe o coração, fazem-na chorar com lágrimas que o outro não vê. Esse é o preço que ela paga: a realidade absoluta, sensorial, palpável, como se fosse dela. A mulher absorve tudo em exagero, em segundos escuta as vozes dos momentos, sente a intensidade de uns olhos verdes que dizem amor, o calor de um braço que envolve ombros despidos, a temperatura de um beijo na pele da testa que fala outro tanto mais.

Todos os complementos a um discurso verbal comovem-na a um ponto que apenas a música é capaz de igualar. Ela não percebe porque sente assim ou a razão de depois desejar descobrir algo mais, os sensores reclamando pela experiências das outras pessoas que fazem parte da vida da anterior.

Foram necessários quarenta e oito anos para o saber.

Agora, a onze dias do seu aniversário, a mulher compreende os fios, as ligações, a causa de tanta comoção diante de pessoas que sentiram a vida. A própria vibração da música faz agora sentido mesmo se for apenas o seu.

A mulher sabe finalmente que é uma ladra de passados. Sem isso, sem os unir ao seu, não consegue viver.

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