a memória das fracções

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No carro, o cão estava impaciente.

Espera um pouco; só mais um bocadinho, disse ela.

Fez-lhe uma festa na cabeça e depois desviou-se ligeiramente do caminho. Ela precisava, antes de entrar na vida de todos os dias.

Estacionou, saiu e encostou-se ao carro, de frente para o sítio onde o rio se dilui em mar. Fechou os olhos, procurando concentrar-se no ruído da água e distrair a sua atenção do som do trânsito.

Não quero perder nem um segundo, pensou.

Saboreou então todas as fracções, importante era reter e guardar.

Abriu os olhos. A água brilhava. Uma gota voou e pousou na pele da mão. A mulher beijou-a; a gota viajou, veloz, pela garganta dela, saltou por entre os capilares, desviou-se das sinapses e foi ao local exacto onde queria estar.

Distendeu e multiplicou-se, sem perder a característica, transformando-se assim no colo fresco de cada uma das fracções de todos os minutos que a mulher quisera guardar.

No carro, o cão adormeceu.

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