movimento perpétuo

Quando éramos pequeninos ouvíamos os pais falar dos velhinhos. Os velhinhos que ‘estavam muito em baixo’, um ou outro que ‘até estava muito bem’ e algumas vezes conversavam sobre os que tinham ido para o outro mundo, acrescentando ares graves ao discurso, semblantes que não percebíamos muito bem, acompanhados de expressões como ‘felizmente não sofreu muito’ ou ‘foi de doença prolongada’.

A doença e a morte eram descritas desta maneira, meio velada, meio entredentes, metafórica. Tínhamos dificuldades em compreender a que se referiam; contudo, não importava, vida de crianças como nós tinha outros quefazeres. O fundamental era que os pais eram imortais, quase super-heróis, outra hipótese não entrava na nossa equação.

Hoje tenho a idade que a minha mãe teria na altura. Com maior frequência do que a que gostaria, ultimamente observo os meus filhos, sobretudo o mais pequeno, com a mesma atitude. Graças a Deus. Para eles, os pais viverão para sempre, os outros, os mais crescidos, porventura não será tão garantido mas essa é uma realidade longínqua. A diferença é que pelo menos no meu caso, a morte é dita com todas as letras, prefiro que saibam que faz parte do ciclo da vida.

Ontem morreu um grande amigo da família, um dos melhores amigos do meu pai, um tio que fez parte da minha infância e adolescência, de cujos filhos fui e sou grande amiga. Esta morte, como a de tantos pais de amigos de sempre, é um beliscão na idade com que me sinto, a dimensão mais desagradável da idade adulta, uma tomada de consciência de que estamos longe daqueles tempos de uma existência mais ligeira, apenas dedicada a ser capaz de saltar para a pocinha seguinte sabendo que haverá sempre alguém em casa pronto para dar um pequeno ralhete e conforto, também.

Estes dias cinzentos fazem-me sentir mais crescida e abrem pequenos buracos de tristeza pelo reiterar de que nada é eterno.

Ou talvez não, talvez seja esta a doce confirmação de que estamos vivos, um movimento perpétuo de ensinamentos que se recebem e se voltam a dar, construindo de alguma maneira a verdadeira imortalidade dos seres humanos.

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s