o brilho dos pequenos nadas

Naquele dia ela contou a história dos campos de algodão.

Teve pudor em contar tudo, sentiu uma espécie de vergonha por uma história já tão inteira, tão definida, talvez pudesse ser aborrecido.
Contou o suficiente; e um dia escreveu outra história pequenina da sua vida, da qual também faziam parte as fibras voláteis do algodão.
Depois esperou. Não foi preciso muito.

As histórias sucederam-se, responderam umas às outras como pessoas crescidas, encantadas com harmonias distintas. Cresceram tanto em número que, um dia, a cabeça dela teve receio de se esquecer de um pormenor que fosse e o coração exigiu agradecer.
Então, as mãos inquietas responderam às ordens dos dois e, durante várias noites, enquanto todos dormiam, coseram a memória em forma de mais um conto feito dos brilhos e dos pequenos nadas de todas aquelas histórias que a aqueciam por dentro, fazendo com que muitas vezes se esquecesse mesmo de respirar. 

Na manhã seguinte, ela viu e voltou a sentir-se feliz.

O conto voou pelo ar onde também tinha sido praticamente construído,
entrou mar adentro,
beijou uma papoila que ainda flutuava,
fez uma festa doce a uma peónia rosada,
subiu pelo tronco de um jacarandá pedindo licença para ganhar balanço,
e finalmente chegou à varanda,
àquela que era a varanda de todos os sonhos.

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