a janela

Pousado na janela, o pássaro espreitou. Andava a rondar aquela casa havia muito tempo. A curiosidade espicaçava-o mas não estava completamente certo de querer entrar. As últimas tinham fechado portas ou sugerido vidraças entreabertas onde pensara que havia luz quando apenas se tratara da chama de uma vela. Confuso, o pássaro agitou as penas como se pretendesse voar para longe. Um ruído sobressaltou-o, olhou de novo. A janela estava agora aberta. Do lado de dentro, um bebedouro. A medo, a ave entrou. Sem perder de vista a janela, teve de admitir que aquilo que via do interior lhe agradava. Saltou e voou rapidamente pelo espaço, não podia perder de vista o mundo lá fora. Por fim, dirigiu-se ao bebedouro e satisfez a sede. A janela continuava aberta. O pássaro sacudiu as asas e avançou para fora, contente.
No dia seguinte, voltou, tornou a entrar, descobriu mais uns quantos detalhes e novamente saiu. Foi regressando à casa em dias seguidos ou intermitentes, encontrando sempre, em cada uma de todas as vezes, a janela sem fechar e o bebedouro, fosse qual fosse a estação do ano.
Numa tarde muito fria, o pássaro sentiu-se tão aconchegado lá dentro que adormeceu. Acordou assustado e irritado consigo mesmo pela distracção: talvez tivesse sido desta. Uma brisa gelada soprou sobre as penas da sua cabeça; apesar de tudo, da temperatura, do gelo, o trinco não tinha sido fechado.
Então, e apenas então, a ave descansou: agora sim, podia deixar-se estar. Nada lhe poderia dar mais vontade de ficar que a eterna liberdade de poder partir.
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