gravidade

Acordou e, sem pensar, esticou o braço, agarrou no comando e escolheu a música que falava da gravidade. O botão de repeat acendeu-se e ela escutou-a vezes sem conta, vezes seguidas, obrigando-se a não cantar, a escutar a letra com atenção, a compreender como cada nota tinha impacto, enquanto se arranjava para uma nova semana. Na casa silenciosa, a música fez-se ouvir de forma repetida, a mulher calando-se de cada vez que tinha a tentação de a reproduzir com a sua voz. Por fim, o espaço ficou em silêncio, ela desligara a repetição. Por um instante, estremeceu, como sempre tremia face a tomadas de consciência, a momentos de mudança. Abriu a janela , ficou sem ar de tanto medo mas sem hesitar, saltou. A luz e o ar frio envolveram-na nos seus braços e deixaram-na cair, de pé, na calçada. A mulher tremia agora em cada bocadinho de pele. Contudo, era preciso. Na vida, por vezes é preciso deixar-se cair. Depois, apenas depois de sentir a queda, de experimentar o inebriar da luz e o receio da escuridão, será possível, finalmente, voltar a confiar.

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