linhas, pontos

Ela alinhavava. Cortava. Voltava a alinhavar. Cortava de novo. Escolhia outra cor, regressava ao preto, a sua cor preferida na superfície branca. As junções voavam na sua cabeça mais rápido que nas mãos. A mulher suspirava e voltava de novo. Por vezes, ficava satisfeita, noutras, as mais raras, as mais intensas, sentia os pontos longe. Quando o motivo vinha de dentro era sempre mais difícil encontrar a combinação perfeita. O sentido, a expressão, perdiam-se, odiava ser repetitiva, banal: como se preparava uma ternura imensa para ser cosida com mestria? 
Depois de tantos, depois de demasiados, aquele dia chegou. Um fio, delicado e macio, enrolou-se nos seus dedos. A mulher observou a magia e suspendeu a respiração. O fio foi percorrendo a pele das mãos, espreitou para dentro das roupas, descobriu todos os poros e abraçou-lhe o coração. Surpreendida com a rareza de não ter de fazer mais nada, fechou os olhos e saboreou, jurando a si mesma que apenas faria isso mesmo. Saborear. A costureira das palavras sabia agora que não era preciso explicar mais nada.


(A foto, maravilhosa, é do José D’Almeida e da Maria Flores.)
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