paciência?!

Sentada numa das inúmeras esperas da Loja do Cidadão, a mulher leu umas páginas do livro. Geralmente tinha uma capacidade de abstracção bestial; mas hoje, os pings e os pongs dos números das senhas tiravam-lhe a concentração. Ainda faltavam trinta antes do seu e a ela restava-lhe apenas uma hora, antes da tarefa seguinte. Deu por si irritada e esse estado trouxe-lhe à memória os demasiados acontecimentos de uma manhã apenas: o passeio matinal, o desencontro ao chegar a casa, a multa pesada a caminho do consultório, a otite cerosa do miúdo, os trinta-e-muitos-graus, a irmã mais velha que mais uma vez partia, deixando um vazio pequenino. Ping. PIng. Ping. Ping. Os números ganharam velocidade no écran e de súbito, a sua vez chegara, como que por milagre. A mulher suspirou: talvez valesse a pena ter paciência. A verdade é que a paciência era o seu exercício diário dos últimos dois anos; não lhe trouxera melhor forma física, mais paz ou arremessos esotéricos de serenidade. Será que a paciência dela ainda aguentava ter de exercer mais paciência? Merda para a paciência.
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