aventura no bloco operatório

O senhor meu pai teve hoje mais uma aventura no bloco operatório. Depois das anteriores que lhe rejuvenesceram o coração e lhe devolveram a vida, vestiu novamente o seu chapéu de explorador e as botas dos campos de África, e lançou-se a vencer mais um desafio do corpo: duas hérnias silenciosas que teimavam em dificultar-lhe a vida, impedi-lo de andar vigorosamente; em suma, duas espertas que procuravam restringir-lhe a mobilidade, como se quisessem provar-lhe os seus oitenta e seis anos. Tão enganadinhas. O senhor engenheiro pode ter essa idade na morfologia mas no resto é mais ágil que muitos jovens, mais desperto que muitos executivos, mais activo que a maioria dos supostos atletas urbanos. Assim sendo, caçou as duas, meteu-as num frasco, deitou-lhes a língua de fora e até foi capaz de pedir que não lhe dessem anestesia geral porque não quer perder a memória. O senhor meu pai pode ter algumas cicatrizes mas leva-as com jeito, como recordações da vida que sempre quis: uma vida cheia, vivida nas mãos, nos olhos e em tudo o que guarda não em objectos mas nas células invulgarmente inteligentes do seu cérebro, e em cada poro da pele, também. O meu pai comove-se em silêncio com as coisas pequeninas; esse é o brilho da valentia que nunca acaba nos seus olhos. 
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