la desgana

Uma das coisas de que sentia falta era da vontade de ler, entregar-se a um livro sem limites, de maneira absoluta, devorando as páginas, acreditando na trama, odiando ou amando personagens. A culpa não era dos livros, pensou ela, a culpa não era do candeeiro avariado, do trabalho ou da falta de tempo. Se havia culpa era da desgana, como se dizia em castelhano. Desgana, leia-se falta de ganas, entenda-se apatia, falta de interesse. Nos últimos tempos o adjectivo aplicava-se com exactidão, tinha andado desganada. De muitas coisas. E também dos livros. Contudo, pouco a pouco, as peças voltavam a colocar-se nos lugares certos ou noutros, melhores. A saudade dos livros era um bom sinal. Como em todas as coisas importantes da vida, na órbita circular ou elíptica da existência que verdadeiramente acompanha, marca e faz falta, ela voltaria. Voltaria a mergulhar perdendo a cabeça nas páginas de uma obra. Ao fazê-lo, estremeceria e, por tremer, garantiria que continuava viva.
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