vicente

Passava pouco mais da uma da manhã. Esticada no sofá, ela escrevia no portátil um guião para uma gala. Mais preciso seria dizer ela escrevia furiosamente; no sentido da pressa. A razão não era a hora tardia e muito menos a gala. O motivo era o bebé. A barriga dela já não lhe servia de conforto, aquele menino, remexido e madrugador, queria conhecer o mundo cá fora, ver a cara de todos aqueles que reconhecia pela voz e pelo tacto, por vezes. Por isso, ele começara a empurrá-la de modo suave, no dia anterior, como as crianças puxam pelos casacos ou sáias das mães. Ela não lhe dera demasiada importância e então ele decidiu que talvez fosse melhor abaná-la,  fazê-la suar um pouco, porventura assim ela compreenderia. Assim foi. A mulher contou os avisos do miúdo, percebeu que ele não era dos que gostavam de esperar, desligou o portátil, e disse

É melhor irmos.

Duas horas e meia depois entrava no bloco entre os seus ataques de riso e a nervoseira do marido.


O Vicente nasceu há quatro anos. Não pode haver criança mais alegre, mais engraçada,  mais exagerada, tanto nos afectos como na vontade. Talvez seja isto que dizem todas as mães, mas não importa. O que importa é que todos os anos tomo consciência de que os meus dois filhos nasceram vítimas do riso. Talvez por isso (e por todas as coisas que os fazem ser eles) sejam tão maravilhosos. E não existe nada material, carreira ou ambição que alguma vez possam substituir dádivas tão bonitas da vida.
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