barco negro



De manhã temendo que me achasses feia,
acordei tremendo deitada na areia,
mas logo os teus olhos disseram que não
e o sol penetrou no meu coração.

Vi depois, numa rocha, uma cruz,
e o teu barco negro dançava na luz;
vi teu braço acenando, entre as velas já soltas.
Dizem as velhas da praia que não voltas…
São loucas! São loucas!

Eu sei, meu amor,
que nem chegaste a partir,
pois tudo em meu redor
me diz que estás sempre comigo.

No vento que lança
areia nos vidros,
na água que canta,
no fogo mortiço, 
no calor do leito,
nos bancos vazios,
dentro do meu peito
estás sempre comigo.

A primeira vez que ouvi este poema de David Mourão Ferreira cantado por Amália, tinha treze anos. Lembro-me que me deixou sentada no chão com uma impressão fortíssima que fazia ligação directa ao coração e daí a um nó na garganta. Nunca mais me esqueci dele ou dos acordes iniciais da guitarra com as pancadas secas na madeira. Ontem voltei a ouvi-lo na voz de Teresa Lopes Alves. Comovi-me até às entranhas, mais uma vez. Palavras, música e voz. Raras são as uniões mais sublimes.


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