também este dia passará

A mulher sentia uma pedra no peito. Não sabia se era fruto do assalto da amiga no dia anterior, em plena luz do dia, das conversas sobre roubos e violações mais tarde, quando a noite já entrara, ou dos sonhos turbulentos resultantes de tudo isso que a tinham separado do descanso, sem que deles tivesse qualquer espécie de lembrança a não ser a da sensação da dita pedra no peito temperada por algumas imagens difusas espalhadas pela memória. Saiu demasiado tarde de casa. Deu por si a sentir medo pelo filho mais novo, tomou consciência das palavras que lhe dissera e que não queria proferir, as palavras da desconfiança nos outros, do mal que nos rodeia mesmo que não o queiramos ver. Odiava a desconfiança, odiava a necessidade de a ter. O seu mundo imaginado e sempre útil era um mundo seguro, bonito embora por vezes desequilibrado, contudo um mundo no qual as pessoas têm sempre uma segunda oportunidade. Era sempre esse mundo que a fazia avançar e sobretudo acreditar. Ela não conseguia viver sem acreditar. Respirou fundo e então acreditou que este dia fazia parte do equilíbrio da vida. Como parte desse equilíbrio, também ele passaria.
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