o lixo

Era a segunda noite com pesadelos. Na primeira, uma mulher vestida de vermelho, aparecia numa soleira de uma porta qualquer de um quarto qualquer. Não era uma  mulher admirável em nenhum sentido, era um nada dentro de um corpo sem expressão. Este nada desfez-se em tecido escarlate e depois transformou-se num corvo que fincava as garras na cabeça daquela que sonhava, como se pretendesse roubar-lhe o filho mais novo. Ficara sem voz de tanto gritar e não ser ouvida naquela dimensão, ao ponto de acordar assustada, acender todas as luzes e visitar os dois filhos adormecidos nos seus quartos, tocando e beijando a sua pele para ter a certeza de que estavam ali. 
Na segunda noite, era perseguida por seres hipoteticamente humanos, uma vez mais, nadas dentro de corpos sem expressão que a ameaçavam com aquela que pode ser a maior ameaça para uma mulher: a violação do seu espaço mais íntimo. Despertara de novo, desta vez enojada, desejando esfregar o corpo num banho de água fresca ou mesmo gelada.
A mulher sabia que, por vezes, os sonhos eram os caixotes do lixo da humanidade; mas o facto de o saber não lhe servia de muito. Na verdade, preferia que os homens do lixo psicológico passassem a outras horas. De preferência, em todas aquelas onde a consciência e um certo tipo de visão, com demasiados sentidos, fossem inacessíveis ao processo de sentir o cheiro dos objectos podres da memória, para ter a noção da necessidade de os colocar nos sacos mais feios do inconsciente e dar-lhes destino definitivo num vazio sem fim nem retorno.
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