o cheiro

Tudo começou num cheiro. 
Cheirava a queimado em todas as divisões do espaço. Alguém viu fumo. Outra subiu as escadas procurando indícios noutros andares. 
Uma cabeça imaginou e viu uma mulher mais velha queimando cartas de amor de um amante impossível, enquanto o marido dormia a sesta inebriado pelo fumo, quem sabe não poderia ser aquela a oportunidade de uma vida diferente, ainda que aos setenta anos. 
Ou vagabundos fazendo uma fogueira de lenha barata impregnada de óleo de motor de tractor, num festim de restos de lagosta roubados dos caixotes do lixo de um restaurante fino da zona. 
Ou ainda um fósforo perdido por entre as traves de madeira do soalho pegando fogo a serradura misturada com baratas e pó. 
Nesta visão, a cabeça deteve-se e voltou à realidade. Afinal, o cheiro já andava mais longe e era preciso regressar ao trabalho. ‘Aquiete-se, sua louca da casa’, disse-se a si mesma a cabeça. E sorriu, lembrando-se do livro de Rosa Montero onde se demonstrava como a vida era pródiga em coisas simples, muito prestáveis à criação de histórias fantásticas.
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