um pouco mais acima


Desligou o telefone e um travo amargo emergiu. Sentiu-se parva, muito parva, uma perfeita tonta. Os sinais tinham lá estado, cada vez mais patentes, em cada ocasião mais presentes, ela tinha-os visto e não quisera saber. Desta vez, tinha ligado com saudades, o motivo era um sonho com a amiga sempre ocupada, como se fosse preciso um sonho para contactar quem se gosta. A amiga respondera em jeito blasée, enchera a linha telefónica com as suas mil ocupações, viagens e sucessos. Do lado de cá, a mulher foi ficando pequena, diminuída, estreita, minúscula, até se tornar insignificante nas palavras da outra. Desligou então o telefone e ficou triste. Deixou-se viver a mágoa, olhou-a de todos os lados, limpou-se dela e finalmente concluiu a mesma verdade que aprendia de cada vez que tinha desgostos de amizade: às vezes é preciso deslocar certas pessoas para uma prateleira mais acima, mais longe do coração. A simples constatação, ajudou. Respirou fundo e seguiu a sua vida sem mais amargura. E com menos uma ilusão.

(A ilustração maravilhosa é de Yusuke Yamada. Obrigada, querida A.R.)
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