dois sapatos de cabedal

Dois sapatos de cabedal estavam deitados junto à estrada. Um de pé, outro de lado.
“Que miséria”, pensou a senhora de sessenta anos, passando de cabelo branco bem penteado, anel de brasão no dedo mindinho, solitários discretos nos lóbulos das orelhas.
“Que horror, será que alguém morreu aqui?”, pensou a rapariga apressada, laptop ao ombro, tailleur da Zara do verão passado.
“Que diabo, se não houvesse tanta gente, entravam-me já nos calcantes”, disse o homem de mais de quarenta, a garrafa na mão, os passos tropeçando no passeio.
“Este país está uma desgraça”, desdenhou o executivo de pernas musculadas, iPOD 63GB.
Dois sapatos de cabedal estavam deitados junto à estrada. Um de pé, outro de lado.
Debaixo dos jacarandás, mesmo ali ao lado, um casal de adolescentes. Ele, descalço, apatetado pela paixão. Ela, louca de tanto a rir com a vitória.

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