Seja de que maneira fôr

Chegou o primeiro dia de Novembro e encontro-me sem ter celebrado a chegada do Outono. Estranho. Logo eu, que gosto de todas as estações. Não faz mal, mais vale tarde que nunca. E quem quiser, que me ature hoje, com o meu vício desse fruto maravilhoso chamado castanha.
Símbolo do Outono por excelência, para mim significa, em primeiro lugar, os tempos da minha infância no País Basco espanhol. Lembro-me de passear com as minhas primas por entre os castanheiros, as cabeças protegidas por gorros de lã e as mãos brancas de tão frias. Olhávamos o chão, coberto de cogumelos, musgo e humidade, e descobríamos as pequenas bolas pejadas de espinhos verdes. Com os sapatos de borracha, amparávamos as bolas entre os pés; depois, puxávamos por um dos lados para fazer separar os bicos do fruto que colhíamos com prazer. A alegria de encher os sacos de pano era maior quando chegávamos a casa dos meus tios com os narizes vermelhos e a pingar. É que aí vinha o momento da decisão de como as iríamos cozinhar. Não era decisão fácil, essa; ainda continua a não ser.
Um pouco mais tarde, as castanhas passaram a simbolizar o Outono, e também o Inverno, e também Lisboa. Sobretudo nos anos que não vivi aqui, as estações frias e as visitas à capital tinham sempre um quê de nevoeiro, um quê de bruma, fossem elas reais ou fictícias causadas pelos assadores de castanhas. É um cheiro que está gravado no meu nariz e paladar, de tal forma forte que o transmiti ao meu filho mais velho. Não sei se por gene ou por hábito, a verdade é que o vejo a fazer as minhas vezes quando tinha a sua idade e sorrio: o miúdo também não passa sem castanhas no Outono. Falta agora o pequenino Vicente, que ainda não pode deliciar-se com as castanhas mas que pode sentir o seu cheiro. Por isso, vai senti-las assadas e na rua, em plena Lisboa, que é como são mais quentes, mais misteriosas e deixam mais marcas. Mas quando puder, vai saboreá-las de todas as maneiras e descobrir que assadas, piladas, cozidas, em puré, em mousse ou como fôr, a castanha é um dos frutos mais divinos do bosque.

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