Olhos amarelos caíram do céu

O ventre dela cresceu três vezes naqueles onze anos. Deu à luz uma rapariga a quem ofereceu um nome de Dr. Zhivago. Fez nascer um rapaz que carregou três nomes: o nome de um avô de origem indiana, o do padrinho húngaro e ainda o do pai. E uma terceira menina gritou para este mundo e sobreviveu à primeira noite nesta Terra, contra todas as expectativas – chamou-lhe, em castelhano, pomba.
O ventre dela crescia muito de cada vez, mas ela acompanhava o marido sempre; mesmo nas caçadas nocturnas feitas sem rede nem parques de caça controlados como os de hoje. De barriga cheia, ela suportava os solavancos, a lama e as incógnitas da noite, em “picadas” extensas onde os homens queimavam a adrenalina e obedeciam ao espírito ancestral do caçador. Sentia verdadeiro pavor do breu cheio de estrelas que os cercava por todos os lados. No entanto, estava ao pé dele, do homem que a levara para o outro lado do mundo: isso era suficiente.
Nessas noites, olhos amarelos de felino piscavam na escuridão, rasteiros ao chão, a metros dele por entre os espinheiros, escondidos pela corpulência de embondeiros centenários ou em lugares recônditos para os quais alguém sempre se esquecia de olhar.
Aquele dia anunciara uma lua gorda e, também ela, plena.
Tinham atravessado um rio onde os crocodilos se passeavam esperando silenciosamente a inocência de uma presa. Ela, molhara o vestido, imaginando dentes pontiagudos. Ele, lendo os pensamentos da mulher, rira-se com aquela gargalhada sonora que lhe franzia os olhos e alegrava a boca. Depois de cruzarem as águas, pequenas luzes amarelas de mil órbitas espreitaram no negro. O aviso fê-la estremecer:
– Cuidado, patrão!
Tita olhou para cima.
Uma onça adulta saltava sobre o jipe. Ela viu-a em câmara lenta e susteve a respiração, paralisada. Alberto carregou a arma e apontou. Ao som do disparo, o felino travou o salto e desmaiou para sempre no solo, soltando terra seca no ar. 
Desmontaram do todo-o-terreno.
Agarrada ao braço do marido, aproximou-se da onça que soltava o seu último estertor.
Um anjo brilhante soltou-se das garras e elevou-se no céu.
A onça ficou linda e fria no chão, fazendo parte da terra.
to be continued…

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