Chocolate caliente con churros

Ás seis em ponto da manhã, os despertadores tocavam. 
Estremunhados, nas nossas diferentes alturas, saiamos do quartos a bocejar. O pequeno almoço era tomado sem vagares, os duches disciplinados e a bom ritmo: era preciso rumar á estrada o quanto antes e o meu pai não admitia atrasos.
Ainda de noite, as malas entravam na bagageira. Finalmente acomodados nos bancos do carro, partíamos, a paciência para as doze horas de viagem em doses diferentes consoante as idades. Os meus pais tinham no entanto bons truques para passar o tempo

“Ainda falta muito, pai?”

“Tens de contar trinta touros da Osborne.”

Ninguém chegava sequer ao quinto; eu, pelo menos, nunca consegui. O ram-ram do automóvel embalava-me e acabava por sucumbir num sono profundo (também ajudada pelas maravilhosos comprimidos de Vomidrine que evitavam as indigestões desagradáveis da primeira refeição da manhã, causadas pelas curvas e contra-curvas). Quando acordava, era com o sotaque feliz da minha mãe a dizer ya estamos en España. Nessa altura, saltávamos dos bancos para acolher com prazer o cheiro adocicado e forte dos Ducados, misturado com o café con leche da praxe.

Às seis da tarde, dependendo do estado das estradas e da neve que todos rezávamos por ver em Navalcarnero, entrávamos em Madrid. As bocas sucumbiam ao brilho das luzes, os olhos brilhavam de contentamento com a azáfama seca e fria da cidade.
No bairro de Arguelles, o meu abuelo Jesus passeava-se na rua, nervoso, esperando a nossa chegada com impaciência. Na minha visão diminuta tinha muitos metros de altura e uma calvície bem aparada que tapava elegantemente com um chapéu cinzento de aba larga.

“Abueeeloooooooo!!!”…

… Gritávamos do carro, já esquecidos das longas horas, da falta de posição, dos touros da Osborne que pareciam nunca mais acabar. E depois vinham os abraços, os beijos, o olá á porteira de toda a vida, o elevador sempre com o mesmo cheiro… e a abuela Carmen, a querida abuela Carmen, pequenina, mas sempre empoleirada nas cadeiras a pendurar guirnaldas de Natal.
Os dias que se seguiam eram um sem-fim de manhãs acordadas pelo odor do chocolate quente con churros, de tardes ansiosas pela espera dos tios que chegavam de outros pontos de Espanha, do desenferrujar do castelhano em conversas intermináveis de primos que se querem como irmãos.

Não tenho consciência da primeira vez mas sei que assim passei muitos anos da minha vida, celebrando Nochebuena a 24, Navidad a 25, Nochevieja a 31. Que me perdoe o meu lado português mas são nomes muito mais bonitos para as noites das últimas semanas de cada ano. Ou talvez seja o peso das minhas memórias que os recheia de significados doces e de brilhos nas palavras. Não faço a menor ideia nem procuro a explicação: tenho apenas a certeza que é por causa deles que me sinto sempre nostálgica a 23 e que transporto comigo o dever tão grato de conseguir passar aos meus filhos uma lembrança que também eles possam guardar no nariz, na pele e na boca por muitos e longos anos, de forma a espalhá-la por aqueles que serão os seus, para todo o sempre.
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