time, always time.

‘In time we often become one with those we once failed to understand.’

Patti Smith in M Train

Anúncios

Lenda dos Reis

46401-131650494

Descascar uma romã, escolher 3 bagos, trincar cada um e dizer:

Gaspar, Melchior e Baltazar, valei-me desta semente para ter e para dar.

Colocam-se os três bagos numa nota de qualquer valor, dobra-se o mais possível e guarda-se na carteira. No ano seguinte repete-se.

O dinheiro não faltará.

2016

Querido Diário,

Tens razão, há muito tempo que não ando por aqui. Escrevi muito sobre os outros, sabes? O último trimestre do ano foi meteórico e as palavras eram forçadas a saírem das minhas mãos, quase mais velozes que a mente. Como se antes eu pudesse pensar que isso era possível.

Aproximaram-se as festas. O miúdo mais pequeno deu-nos um susto momentâneo que se transformou numa ida ao hospital com direito a tubos, soros e picadas nos pequenos vasos. Aquelas experiências que uma mãe daria tudo por poder-se substituir à criança.
Veio o Natal. Chegou a família de fora, gabando a minha árvore, as luzes da casa, os pormenores cujo gosto herdei de uma avó que conheci vagamente e à distância (Uma avó que metia respeito mas que alegrava a cara e parecia mais alta na eventualidade de uma ocasião festiva. De calendário, claro, os castelhanos puros têm o gene conservador, festas de improviso não eram vistas como coisas decentes). Adiante. A minha família veio e foi num espavento, como sempre são as suas vindas; em bom português, chegam sempre num pé e vão no outro. O mais importante é que os miúdos ficaram felizes com a casa cheia, os avós ganharam muitos minutos de vida e mesmo o ouvido do meu pai que teima em isolar o senhor, não foi suficiente para que se perdesse o brilho da partilha.
À meia noite de dia 24, um Pai Natal sem rosto (porque não se pode espreitar) entrou pela janela da varanda de cima, batendo os pés, e comeu descaradamente todas as bolachas Maria que lhe deixámos num pratinho em forma de agradecimento. Não imaginas como os olhos do miúdo brilhavam na escuridão, naquele misto de receio, curiosidade e excitação que todas as crianças felizes têm e que alguns adultos mantêm…

… E uma semana depois, o ano acabou. De novo, os fogos de artifício pintaram de luz as janelas da minha sala; de novo os amigos encheram a casa… os de sempre e para sempre, outros novos, espaço para mais alguns, os miúdos, nós.

Perguntas-te se pedi alguma coisa? Este ano, não. Este ano, agradeci. Agradeci doze meses intensos de surpresas, aprendizagens, presentes inesperados, recompensas. Amor, muito amor. A gratidão é uma coisa bonita, agradecer não custa. A esta idade ja faz tempo que percebi que quando pedimos desculpamo-nos da responsabilidade e eu não gosto disso. Por isso não peço a entidades divinas ou desconhecidas; de pedir, peço-me a mim, e esses não são pedidos, antes maneiras de garantir um foco apurado na lente. Se pedisse a Deus, ao Universo, pediria saúde e amor. Uns clássicos, bem sei mas Ele(s) deu-me tudo isso neste ano que passou. Por isso pedi os eternos baixinho, depois de agradecer.

Li muito nestas férias, cansadas que estavam as minhas mãos de vomitar palavras, junkie a minha cabeça na avidez de quem escrevesse bem em vez de mim. Li artigos, li as Flores do Afonso, li um americano que se suicidou depois de escrever o que escreveu, li a Clara em três dias, embrenhando-me na mente de uma fotógrafa de guerra, talvez um dos livros mais apaixonantes dos meus últimos tempos. Tão apaixonante que me sinto agora orfã, imaginas o que isso é? Acho que me vou entregar à poesia da escrita da Patti ou ao enredo quase masculino da Elena. Preciso do que vai na cabeça destas mulheres e homens a cujos calcanhares ainda não chego quando se trata de colocar uma história no papel. Pelo caminho, ainda terei de escrever uma entrevista a uma pintora do outro lado do oceano, descobrir as palavras por detrás de um outro pintor de murais, talvez viajar a Madrid para me encontrar com uma Boa Mistura e encantar quem não conhece Barcelona.

Faltam dois dias para que a vida regresse ao seu curso normal. Quem sabe que curso será este num novo ano. Tenho expectativas e vontades. Tenho o quente da família que quero manter a lume brando para que se apure e cresça. Tenho vontade de te escrever e atrever-me a outras escritas guardadas há anos nos recantos desta cabeça, do coração e sabe Deus por onde mais.

Estás a chamar-me, querido Diário. Não posso prometer que estarei aqui todos os dias, sou o pássaro da porta aberta que regressa quando quer ou quando pode, mas regressa sempre.

Tem a certeza disso. Eu tenho poucas, o regresso é uma delas.

Regressarei.

 

Fim

“A música dá-nos uma nobreza que o senhor não imagina. Cada nota é um banco para atarraxar uma lâmpada nos candeeiros do tecto, e a nossa vida fica luminosa. Uma pessoa canta e as trevas empalidecem.”

Flores, Afonso Cruz

 

o tapete dos Deuses

A mulher pediu para escrever. E escrever foi-lhe concedido.

A mulher pediu para escrever do avesso e do direito, de todas as cores, de múltiplos sabores, fazer disso a sua vida. Escrever muito foi-lhe concedido.

A mulher sente-se feliz por isso mas sente saudades. Saudades de escrever

Fantasias.

Absurdos.

Histórias.

Muitas.

Ela sabe, contudo. Sabe que esse não é um desejo que se peça, é um desejo que se concretiza e que surge da via directa entre uma estratosfera qualquer, o cérebro, o coração, os arrepios, as insónias e as mãos. Depois basta um teclado. E a bolha. A bolha das horas, das muitas horas de dedicação solitária, absolutamente silenciosa, o espaço mais difícil de conseguir e fazer entender.

Os Deuses são espertos e estão longe de agirem como pais medrosos e protectores. Os Deuses estendem diversos tapetes diante de nós e depois esperam e observam com  paciência milisecular. Nos intervalos do nosso entusiasmo ou desespero, acotovelam-se e comentam: terá ela capacidade para andar?